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Culpa materna: por que ela aparece e o que fazer com ela

Sente culpa quase todo dia como mãe? Entenda de onde vem a culpa materna, quando ela pesa demais e o que ajuda de verdade.

São 23h, a casa finalmente ficou em silêncio e a cabeça começa a repassar o dia. Falei alto demais. Deixei na tela pra conseguir terminar o trabalho. Perdi a paciência de novo. Se você se reconhece nessa cena, saiba que a culpa materna é um sentimento que muitas mães descrevem, e ele costuma chegar justo na hora em que você mais precisava descansar.

Neste texto vou explicar de onde a culpa vem, quando ela deixa de ser um aviso e passa a só machucar, e o que ajuda na prática.

O que é culpa materna

Culpa materna é a sensação de que você está falhando com o seu filho(a), mesmo quando está fazendo o que consegue. Ela pode surgir depois de uma situação específica (você gritou, atrasou a vacina, voltou a trabalhar) ou ficar de fundo o tempo todo, como um cobrador que não tira férias.

Vale separar duas coisas que andam juntas. Culpa é pensar “eu fiz uma coisa errada”. Vergonha é pensar “eu sou uma péssima mãe”. A diferença importa. Uma revisão sistemática de 2020, que analisou cinco estudos sobre o período pós-parto, encontrou que a vergonha foi a que mais se associou a sintomas de depressão e de estresse. A culpa também apareceu ligada à depressão pós-parto, mas o peso dela diminuiu quando a vergonha entrou na conta (Caldwell et al., 2020).

De onde ela vem

A culpa quase nunca nasce só dentro de você. Ela se alimenta do que você ouve, do que vê e de como o trabalho da casa é dividido.

  • A comparação. Ver outra mãe com a casa em ordem, o bebê dormindo a noite inteira e o corpo “de volta” faz a sua realidade parecer falha, quando na verdade você só está vendo o recorte do dia dela.
  • O julgamento dos outros. Uma revisão de 2021 sobre alimentação do bebê mostrou que muitas mulheres sentem culpa por causa de comentários de profissionais de saúde, de amigas e de familiares. Culpa e vergonha apareceram ligadas à ideia de ser uma “mãe ruim” e a pior saúde mental materna (Jackson et al., 2021).
  • A divisão desigual das tarefas. Quando só você lembra da consulta, da fralda que acabou e do presente da festa, cada coisa esquecida vira prova contra você.
  • A expectativa impossível. A imagem da mãe que está sempre paciente, presente e feliz não existe. Mesmo assim, é com ela que você se compara.

Quando a culpa avisa e quando ela só machuca

Um pouco de culpa mostra que você se importa e pode te ajudar a ajustar algo: pedir desculpa, mudar a rotina, descansar. O problema começa quando ela vira uma cobrança constante, sem saída. Você se pune e nada muda.

Alguns sinais de que a culpa está pesando demais:

  • você passa horas remoendo a mesma cena;
  • tem dificuldade para dormir mesmo quando o bebê dorme;
  • chora ou se irrita com frequência, sem saber bem por quê;
  • evita situações por medo de errar, ou se afasta do bebê e das pessoas;
  • sente que nunca é suficiente, por mais que faça.

O que ajuda na prática

  1. Troque o “eu deveria” por “o que eu precisava naquele momento?”. Quase sempre a resposta é descanso, ajuda ou colo, e não mais cobrança.
  2. Separe o fato do julgamento. Fato: gritei. Julgamento: sou uma péssima mãe. Dá para reparar o fato (pedir desculpa, explicar, abraçar) sem aceitar o julgamento.
  3. Peça ajuda com dia e horário. “Você pode ficar com ele sábado das 9h às 12h?” funciona melhor do que esperar que alguém perceba que você precisa.
  4. Converse com quem não vai te julgar. Em vez de mais conselho, procure alguém que escute.
  5. Fale consigo como falaria com uma amiga. Pense no que você diria a ela se contasse a mesma cena.

Quando procurar ajuda psicológica

Quando a culpa está presente na maior parte dos dias há semanas, se vem com tristeza que não passa, vazio, medo de ficar sozinha com o bebê ou pensamentos que te assustam, ou se atrapalha o seu sono, o seu trabalho ou o vínculo com o seu filho(a). Você não precisa esperar chegar ao limite.

Se aparecerem pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê, procure ajuda imediatamente. O CVV atende 24 horas, de graça, pelo 188.

Como a psicologia perinatal pode ajudar

Na psicoterapia perinatal, a culpa deixa de ser um veredito e vira assunto de conversa: de onde ela veio, o que ela protege, o que você precisa e não está recebendo. O atendimento é online e parte do que você está vivendo, sem roteiro fechado.

Eu atendo mulheres que estão tentando engravidar, gestantes, mães no puerpério e mulheres no luto perinatal. Pode ser uma consulta psicológica pontual, a psicoterapia ou, durante a gestação, o PNP Integra (pré-natal psicológico), que acompanha você da gestação até 3 meses depois do parto. Conheça os atendimentos.

Se você quer conversar sobre o que está sentindo, me chame no WhatsApp.

Leia também: Luto gestacional: o que é e como atravessar a perda de um bebê.

Fontes

Caldwell J, Meredith P, Whittingham K, Ziviani J. Shame and guilt in the postnatal period: a systematic review. Journal of Reproductive and Infant Psychology, 2020. doi.org/10.1080/02646838.2020.1754372

Jackson L, De Pascalis L, Harrold J, Fallon V. Guilt, shame, and postpartum infant feeding outcomes: a systematic review. Maternal & Child Nutrition, 2021. doi.org/10.1111/mcn.13141

Este conteúdo é informativo e não substitui o acompanhamento com uma psicóloga ou com o seu médico.

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Harmonizar o ser mulher com o ser mãe é encontrar o equilíbrio perfeito onde cada aspecto da vida se entrelaça com carinho e realização, criando um espaço de bem-estar e plenitude.