Quem perde um bebê durante a gestação perde também o futuro que já estava sendo imaginado: o nome, o quarto, a data do parto, as conversas com a família. Isso é luto. Ele merece ser tratado como luto mesmo quando a gestação durou poucas semanas e quase ninguém sabia.
Este texto é para quem está passando por isso e também para quem quer ajudar alguém que está.
O que é luto gestacional
É a resposta emocional à perda de um bebê durante a gestação ou logo depois do parto. Isso inclui aborto espontâneo, perda gestacional tardia, natimorto, interrupção por condição grave do bebê e perda neonatal. Cada história é diferente, e nenhuma delas tem uma medida certa de dor.
Como ele costuma aparecer
O luto não segue uma linha reta. Pode vir em ondas, de repente, meses depois. Algumas formas comuns:
- tristeza, choro e sensação de vazio;
- culpa e perguntas que não saem da cabeça (“o que eu fiz?”, “e se eu tivesse…?”);
- raiva do corpo, dos médicos, de quem engravida sem dificuldade;
- dor ao ver barrigas, bebês, enxoval ou anúncios de gravidez;
- cansaço, sono ruim, falta de apetite e outras sensações no corpo;
- vontade de se isolar, ou o contrário, de não ficar sozinha;
- datas difíceis, como a data prevista do parto e o dia da perda.
Sobre a culpa: ela é muito comum nesse luto. Quem pode conversar com você sobre a causa da perda é o seu obstetra, e vale levar essa pergunta para a consulta.
Por que esse luto é tão silenciado
Muita gente não sabe o que dizer e acaba dizendo o que machuca: “foi melhor assim”, “você é jovem, vai ter outro”, “pelo menos foi cedo”. Também existe a ideia de que, se o bebê nem chegou a nascer, não haveria o que chorar. Quando a dor não é reconhecida pelos outros, a mulher tende a se calar.
Uma revisão sistemática de 2024 sobre luto complicado após perda perinatal (dez estudos) concluiu que esse sofrimento é facilmente negligenciado. Os pesquisadores apontaram que fatores como apoio social, relação do casal e formas de enfrentamento influenciam como o luto evolui (Zhang et al., 2024).
Uma meta-análise de 2021, com 29 estudos, comparou mulheres que viveram perda perinatal com mulheres que não viveram. Quem passou pela perda teve mais risco de depressão (risco cerca de 2 vezes maior) e de transtornos de ansiedade (cerca de 1,75 vez maior) (Herbert et al., 2021). Luto não é doença. Mas esse dado mostra por que cuidar da saúde mental depois de uma perda faz diferença.
O que ajuda quem está vivendo a perda
- Dar nome ao que aconteceu. Se fizer sentido para você, dar um nome ao bebê, guardar uma lembrança, escrever uma carta ou fazer um ritual de despedida.
- Respeitar o seu tempo. Não existe prazo para “superar”.
- Escolher com quem falar. Você não precisa explicar o que sente para todo mundo.
- Cuidar do corpo. Ele também passou por isso: sono, comida, retorno ao médico.
- Permitir momentos de alívio sem culpa. Rir em um dia não apaga o que aconteceu.
- Procurar quem viveu algo parecido. Grupos de apoio ajudam muita gente a se sentir menos sozinha.
Se você quer ajudar alguém que perdeu um bebê
O que mais ajuda costuma ser simples. Aparecer. Escutar sem tentar consertar. Usar o nome do bebê, se a família usa. Perguntar “como você está hoje?” em vez de “já passou?”. Lembrar das datas difíceis depois que o assunto sumiu das conversas. E não esquecer do parceiro ou da parceira: muitas vezes ele também sofre, e em silêncio.
Quando procurar ajuda psicológica
Procurar ajuda não quer dizer que algo está errado com o seu luto. Acompanhar essa dor com apoio ajuda, principalmente se:
- depois de semanas ou meses a dor não muda, ou piora;
- você não consegue fazer o básico, como comer, dormir ou trabalhar;
- evita tudo que lembre da perda;
- a culpa é muito intensa;
- você está se isolando, ou há conflitos fortes no casal;
- o medo de uma nova gestação toma conta.
Se aparecerem pensamentos de morrer ou de se machucar, procure ajuda imediatamente. O CVV atende 24 horas, de graça, pelo 188.
E uma nova gestação?
Muitas mulheres sentem alegria e pânico ao mesmo tempo. Não existe momento certo para tentar de novo. Quando e se isso fizer sentido para você, o acompanhamento psicológico durante a gestação ajuda a lidar com o medo e a ansiedade.
Como posso ajudar
Eu atendo mulheres no luto perinatal, gestantes, mães no puerpério e mulheres que estão tentando engravidar. O atendimento é online e parte da sua história, no seu ritmo. Pode ser uma consulta psicológica pontual, a psicoterapia ou, em uma nova gestação, o PNP Integra (pré-natal psicológico). Conheça os atendimentos.
Se você quer conversar, me chame no WhatsApp.
Leia também: Culpa materna: por que ela aparece e o que fazer com ela.
Fontes
Zhang X, Chen Y, Zhao M, Yuan M, Zeng T, Wu M. Complicated grief following the perinatal loss: a systematic review. BMC Pregnancy and Childbirth, 2024. doi.org/10.1186/s12884-024-06986-y
Herbert D, Young K, Pietrusińska M, MacBeth A. The mental health impact of perinatal loss: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, 2021. doi.org/10.1016/j.jad.2021.10.026
Este conteúdo é informativo e não substitui o acompanhamento com uma psicóloga ou com o seu médico.